oscar mourave, brasil
Carta de uma cidade sitiada
Querida Íria,
vou falar sobre coisas que não sei muito, mas que intuo porque a dor é uma grande mestra e nos faz reflectir: vou falar das cidades sitiadas, falarei sobre o meu corpo. Eu sei tu sabes, antes da sua destruição, Tróia sobreviveu dez anos cercada pelos gregos que estiveram acampados à sua frente, e podemos imaginar a inveja grega nas noites de luar quando os troianos provavelmente cantavam o amor que sentiam pela sua cidade e de dentro das suas muralhas vinha o ritmo da vida. Eu sei tu sabes, no dia 14 de Setembro de 1812 Napoleão entra em Moscou e a encontra em chamas, os seus moradores, que a amavam muito, preferiram ardê-la completamente a entregarem-na aos inimigos, Tolstoi deixou sobre isso páginas magnificas, e eu ainda posso imaginar o turbilhão destrutivo provocado pelo fogo a anunciar aos franceses o frio que se lhe seguiria: queimar uma cidade para matá-los de frio! Eu sei tu sabes, nesse mesmo vasto país que é o dos russos, Leningrado sobreviveu 900 dias sitiada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Na cidade morria-se de fome e frio, mas as tropas de Hitler, assim como os gregos invejosos, ouviram uma outra música que vinha de dentro da cidade, era a Sétima Sinfonia de Shostakóvitch, e por um motivo estranhíssimo, sou capaz de pensar que estive na primeira audição, eu sei tu sabes! Disso apreendo que uma cidade é salva quando os seus habitantes a amam mais do que ninguém, porque a entendem como extensão do seu próprio corpo - e o meu corpo, Íria, não é uma cidade amada. Há dias falávamos - quando atravessávamos o Tejo em direcção a Lisboa - sobre as cidades invisíveis de Calvino e tu me indagavas qualquer coisa sobre, e eu era todo entusiasmo naquele momento porque o meu corpo era uma cidade protegida. Perdi a protecção que tinha. O que me restou? O cerco implacável: adoeço dos pés à cabeça, as minhas unhas apodrecem, estou com um terrível resfriado, o meu dente dói e posso perdê-lo e pequenas manchas apoderam-se da minha mão esquerda, uma cidade sitiada é o meu corpo. Não sou Tróia antes da queda, não sou a Moscou que arde na salvação e nem a Leningrado que toca o seu destino, não Íria, eu sou Beirute sob o fogo cerrado dos israelitas, Beirute sem água, sem luz e sem amor. O ser humano e as suas relações me apavoram. O meu corpo começou a morrer, hoje, nesta noite de lua plena. E já não quero mais sair do meu quarto medieval: "o ser humano e as suas relações".
Óscar mourave –in http://www.finisterra.blogger.com.br/
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Por lobitogabriel - 11 de Agosto, 2006, 9:32, Categoría: lecturas
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